sexta-feira, 12 de junho de 2009

Pretérito Imperfeito

Gosto das Pessoas-Marginais
daquelas que se fartam,

sensuais,
das que procuram o lado mais escuro desta Vida.


Gosto do Desafio e de Caçar,
de perder e de ganhar,
das sensações diferentes do "normal".

Sou eu assim,
uma ave que migra quando quer,
um cão sem dono
e sem Razão:
-Somente uma Pessoa.

Não quero mais que tudo aquilo que a Vida
pode dar.


Gosto!

Isabel Perry
Porque voltaste?
Sabias que não podias cá ficar...

Sabias que não sou casa em que se pare!

Subiste as escadas
Entraste no meu quarto e desfizeste a cama.
Sem cerimónia
Como se tu e eu nos conhecessemos desde sempre
E entrar e sair
Fosse tão natural
Como respirar.

Quando começava a habituar-me
Ao teu ombro
Ao teu suor
Ao teu olhar
Reparei que fugias
Suavemente
Para não me acordar.

Mas o meu sono já é leve.

E deixei-te ir.

Para quê lutar contra aquilo que sabemos ser
As ondas sucessivas
Inevitáveis
De um repetido Mar?

Isabel Perry in "O Amor não é"
Esta noite no Norte
Há perfumes de Sul...

A trovoada lilás
Invade o escuro céu
De cores eléctricas
Indomadas
E vertiginosas.

Como um raio fugaz
Que descarrega

A razão de Ser-Natureza

Assim eu me assusto comigo
Quando fujo ao controlo
De todas as racionalidades
Para ser

Simplesmente relâmpago

E desfazer-me em chuva
E nos tais cheiros

Selvagens

Das FLORES-DO-SUL!


Isabel Perry in "A Margem De Cá"
A saudade é um rio
De palavras abertas
Tão súbito
Doendo
De punhais.
A saudade é um nome
Um vazio
Um desvão
É um tempo parando.
A saudade é um eco
É um grito
Um bocado de sonho
Quando se acordou.

A saudade é um sol
Que se arrasta connosco
Doendo
Doendo
Sem nunca se pôr.


Isabel Perry in "A Margem De Cá"
Sei de cor
A geografia do teu corpo
Sei cada curva
Em que o teu sol
Se expande.

Rosa-dos-Ventos
Da qual perdi o Norte
Quero percorrer

Contigo

Todos os pontos cardeais.......

Isabel Perry in "A Margem De Cá"
Quando amanhece
Acordas
Com uma asa de gaivota
Que te lembra a Primavera
A pensar em ti.

Silhueta

Do sonho que sonhaste
Não sabes se confundes
Se existi....


Isabel Perry in "A Margem De Cá"
Boletim meteorológico para amanhã:

Acordar com a neura habitual.
Sorrir ao espelho até quebrar a cara.
Tomar o duche quente e matinal.
Mais um dia.
Mais um copo.
Uma poesia.
Apagar uma linha ou emendar
O mais possível
O impossível rascunho
Desta Vida!

Isabel Perry in "A Margem De Cá"
A Vida corre tão depressa
Como a água de um rio
Em tempestade.

E quando se acorda
Já o sol vai alto
O vento parou
E ficamos estáticos
Mudos
No Tempo
Que não prendemos
Nas nossas mãos porque não soubemos!

Queria ser folha
Levada no Vento!

Deixar correr em mim todas as brisas
Todos os ares do mundo!

Aprender neles
Os murmúrios das águas
O falar das gentes
O sentir dos corpos!

Queria ser cavalo ou borboleta!

Não conhecer o Tempo
E deixar-me


Fluir
Pela simples acção de estar viva!

ÁGUA – VENTO – VELOCIDADE – TEMPO!


Isabel Perry in "A Margem De Cá"
RIBEIRA

Passei pelas ruas
Onde no outro dia
Passeei contigo.

O rio continuava a deslizar,
No seu vagar gelatinoso,
O brilho das casas-fantasmas
Das margens
Em cascata.

Luzes amarelas
Nasciam das ruelas
Bocados de pontos de crochet
Entrelaçados
Onde pedras e escadas
Se abraçavam.

Havia lá um banco
Solitário
Onde ás vezes
Pessoas
Como tu e eu
Se sentam
Toda uma tarde inteira
A conversar.....

Isabel Perry in "A Margem De Cá"

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Quero apanhar-te
Última gota de chuva
Antes de debandar para o deserto
E desvendar os Sóis.

Quero

Que tua água seja sal
E que o teu sal
Se transforme em vento e me ilumine.

Chuva
Que não choves
Enquanto
Vou sonhando
Dia adentro
Que me afogo
Em tuas ondas
Amarelas........

Onde é a forja
Em que se fez o Sol?

Estarás lá
Queimar-me-ei em ti!


Isabel Perry in "A Margem de Cá"
São demais estes dias
Em que a cabeça se atreve
A não pedir licença
Para viajar!

Viagens
De que desconheço o ultimo destino

E só sei
Que o que me leva
Não sou eu

Mas algo mais que eu!

Como se não fosse a dona
De um Destino
Que teimo
Em vão
Em procurar.

Insanidade
Daqueles que se atrevem
À procura de fogos sagrados
Onde acabam
Fatalmente
Por um dia se queimar!

Não!
Não sou dona de mim!

Tenho uma alma
Vagabunda
E
Nem mesmo á beira do abismo
Sei parar!


Isabel Perry in "A Margem de Cá"

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Olhei as estrelas e perguntei:
- Quem Sou?

Dentro de mim,
elas responderam-me:
- Quem Somos?

e no silêncio,
deixei-me brilhar com elas.

Fiquei ali....simplesmente brilhando.

Então,
senti que não havia Longe.

Só estrelas brilhando
e por vezes
muitas noites com nuvens...

Sorri
e aprendi a amar
as formas das nuvens.


Isabel Perry in " A Travessia"

quinta-feira, 2 de abril de 2009

A minha Vida acontece só às vezes

Em raros dias que amanhecem dentro de outros dias
Nunca sabendo
Ao pôr-do-sol se eu sou aquela que acordou pela manhã

Ou alguém transformado

Em camadas de dias, muitos dias
Dentro de outros dias desiguais...


Isabel Perry in "B Polar"

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

O absurdo
É eu ser um infinito cheio de finitos
Sol radiante seguido de chuvada
Um estranho errante
Assim parada
Dentro de mim
Um vagabundo
Um grito.

O absurdo
É eu ser tanto e quase nada
É eu saber de mim e não dizer
E passar por esta vida
Sem saber
Como mostrar
A minha Madrugada.


Isabel Perry in " A Margem De Cá"

Queres um gole de champagne?

talvez nem houvesse palavras e o silêncio fosse a melhor conversa...
talvez beijar fosse o melhor diálogo
e o teu corpo no meu o decorrer do conto....
nem o princípio, nem o meio, nem o fim.
talvez me debruçasse na janela e houvesse um rio com barcos
e eu perdesse a noção
a minha cabeça era o rio ou os barcos ou os cheiros ou a seda
do vestido derramado pelo chão.


Queres um gole de champagne?


Isabel Perry in "A Travessia"
O meu copo gelado.
O meu corpo quente.

Sorvo o gelo
E o gin
E dou-te os meus lábios
Num beijo molhado.

Lá longe
O mar
Esqueceu-se de mim.
Ébria de palavras
Procuro o tal barco
Para me levar.

Não encontro o sal
Já não vejo o sol
Apenas um rio
Que desliza lento
E o cheiro da noite
Morna de jasmim.


Isabel Perry in" A Travessia"
Hoje
Quando a tarde já caía
Passei de carro
No Passeio Alegre.

À janela da sua casa branca
Branco senhor reflectia
O rio Douro no olhar.

Tecendo fantasias
Enchia toda a Foz
De Mar!

Era Eugénio de Andrade
O meu Poeta.

Dei por mim sentindo
Sem pensar
Que me faltava uma Janela assim
Onde para além de tudo o que ele vê
E eu não vejo
Pudesse ver

Perto do Fim

O sítio exacto
Onde tudo recomeça,

Até o Mar!


Isabel Perry in " A TRAVESSIA"
Escrever
Como quem escreve uma canção

Sonhar
Como se inventasse
Os Sonhadores.


Rir
Como se cada gargalhada
Lembrasse

A tua boca.

Isabel Perry in " A TRAVESSIA"
Chove
Abençoada chuva.
Rega só de Inverno
E aparência
O desejado Verão.


Os grilos não dormem.
As cigarras calaram
A sua
música-de-terra-madura...

Agreste eu sou
Quando o meu silêncio não fala
Das palavras-caladas...

Mas se tenho alguém
Que me beba
Os segredos
Em taça me torno
E das mãos
Nos marginais dedos!


Isabel Perry in " A Margem De Cá"