quinta-feira, 20 de novembro de 2008

AS PALAVRAS

As palavras respiram.
Pensam.
Caiem e voltam a erguer-se.

As palavras caminham, deslizam e cochicham.
As palavras dão-se e recebem-se
Contorcem-se
E abrem-se
Atingem-nos
Desvendam-nos.

As palavras são uma seta.

Amar é uma palavra
Que é só
Não querer estar só.

A solidão é uma palavra
Que nos sai
Suspirando
Em muitas letras:
Só alguns as sabem ler.
Outros
Sabem-nas de cor.

As palavras são a lucidez
A faca de dois gumes
O veículo
Com o qual só se vai
Não se regressa.

Abro todas as palavras na minha página certa.
A tua.
E, de página em página
De semana em semana
Vou construindo
Capítulos.

As palavras matam-nos a fome
São uma manta de lã no Inverno
E um xaile de seda no Verão.

As palavras são noite
Navegam connosco através das sombras
E acordam connosco
Dando-nos o Sol.

As palavras são a sede da Água.
Escapam-se-nos entre os dedos
Se não as bebermos a Tempo!

Palavra
Chamo-me Isabel,
Isabel do Porto,
Porto das Barcas,
Porto das Brumas.

Desembarco.

in " A MARGEM DE CÁ",
um Livro que só vou dando a ler a quem, como eu, ama Palavras
Isabel Perry da Câmara

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